quinta-feira ,22 junho 2017
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Crise retirou R$ 7,2 mil dos lares baianos

 

Foto: Reprodução

Faturamento do comércio na Bahia caiu 21% nos últimos dois anos

A crise na economia fez o varejo brasileiro deixar de faturar nos dois últimos anos mais de R$ 605 bilhões, aponta um estudo inédito produzido pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA). É como se cada família tivesse deixado de consumir R$ 413 por mês, nos últimos 24 meses. Na Bahia, o que se deixou de faturar soma quase R$ 30 bilhões no mesmo período. A perda por família foi de aproximadamente R$ 300.

 No Brasil, a perda de faturamento foi de 18%, enquanto na Bahia, perdeu-se 21%. Foram R$ 9,9 mil a menos por família, se somados os 24 meses, no país. Na Bahia, em particular, as perdas somam R$ 7,2 mil.
 O estudo mostra que a instabilidade econômica impediu que os consumidores do país gastassem, nos últimos dois anos, o equivalente a cinco Smart TVs, ou cinco geladeiras nos últimos cinco anos.  Ou, se quisessem diversificar, impediu a compra de uma TV, uma geladeira, um micro-ondas, um fogão, uma máquina de lavar, um smartphone, um guarda-roupas e um armário de cozinha.
 O economista Fábio Pina, consultor econômico da Fecomércio-BA  e responsável pelo estudo, lembra ainda que os R$ 605 bilhões que o varejo brasileiro deixou de faturar equivalem a quase 14 vezes os R$ 45 bilhões que estão sendo injetados na economia brasileira graças à liberação dos recursos em contas inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Ou a 15 anos de Bolsa Família.

“Essa publicação que estamos lançando deixa bem claro que tudo o que o setor produtivo mais precisa é de estabilidade. Nós teríamos que ter 14 vezes a liberação do FGTS inativo para compensar tudo aquilo que o varejo perdeu com a crise nos últimos dois anos”, afirma.

Pina explica que o levantamento feito por ele não considerou o movimento de crescimento que era registrado na atividade até 2014. “Se fôssemos considerar o ritmo de crescimento que existia na atividade, as perdas seriam muito maiores”, ressalta ele, lembrando que o varejo registrava altas mensais de 3%, em média.

“O problema de fato é que, não só o varejo não deveria ter perdido esse montante de faturamento, mas, em condições econômicas normais, era para ter crescido no período, o que torna essa perda ainda maior em relação ao potencial de vendas que deveria ter ocorrido, mas se perdeu em meio à crise e ao desemprego recorde”, analisa.

(Imagem: Gráficos Correio)

Menos conforto
Para o economista Fábio Pina, a situação do varejo é ruim para todos. “As empresas perdem faturamento, os trabalhadores no setor perdem os seus empregos e o conjunto da sociedade teve que aprender a viver com menos conforto nesse período”, aponta. Ele lembra que os R$ 413 que deixaram de ser gastos todos os meses pelas famílias brasileiras representam “menos comida na mesa, menos eletrodomésticos e menos móveis”.

 A nutricionista Nadja Lúcia Ribeiro, 53, conta que a crise afetou, inclusive, o seu cardápio diário. Além das idas ao restaurante terem se tornado cada vez mais raras, as refeições em casa também ficaram mais modestas.

“Nos últimos três ou quatro meses, o custo com alimentação está aumentando dia a dia, e não é um item específico, está tudo mais caro. Então, temos que reduzir, por exemplo, o consumo de carne vermelha e buscar alternativas que sejam mais em conta”, disse. E completou: “O comércio perde, mas a gente também perde porque temos que abrir mão de muita coisa para poder fechar o orçamento”.

Desconfiança
O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado da Bahia (FCDL/BA), Antoine Tawil, aponta a desconfiança do consumidor em relação aos desdobramentos políticos do país e a falta de crédito como fatores responsáveis pela queda nas vendas no comércio varejista.

De acordo com Tawil, quando se tem desconfiança, mesmo aquelas pessoas com poder de compra abrem mão  de consumir. “Hoje, o país vive a pior crise da sua história recente e nesse contexto, as pessoas não compram. O consumo do varejo está diretamente ligado ao modo como as pessoas veem o país”, disse.

 Tawil avalia que o cenário econômico, que parecia se estabilizar,  voltou a piorar recentemente, por conta de turbulências políticas. “Começamos a ver uma luz no fim do túnel com as reformas, mas na semana passada veio mais um escândalo político para jogar um balde de água fria em toda a economia brasileira”, disse.
Para Tawil, por estar na ponta final da cadeia produtiva, o setor varejista funciona como uma espécie de termômetro da economia, que mostra de forma muito prática quando a balança comercial está favorável ou não. “Essas lojas são a ponta de um grande iceberg e quando há variação nos números, onde mais isso aparece é no varejo. Infelizmente, essa variação tem sido negativa ultimamente”, lamenta o dirigente lojista.

Lojas apostam em cortes de custos
A crise no setor varejista tem como principais vítimas os trabalhadores que dependem das vendas. Com as margens cada vez menores, o comércio aposta no enxugamento de despesas, o que por vezes passa pelo corte no número de funcionários, ou mesmo no fechamento de lojas.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Estado da Bahia (Sindilojas/BA), Paulo Motta, o cenário reflete a grave situação econômica que o setor varejista atravessa. Segundo Motta, nos últimos três anos,  cerca de 50 mil lojas foram fechadas na Bahia.

“O consumidor está mais cauteloso até porque a taxa de juros esteve muito alta nos últimos anos”, afirma. A inflação também esteve enorme e há a instabilidade política que persiste até hoje”, diz. Para Motta, diante deste cenário, só resta aos lojistas reduzirem os preços e, consequentemente, as margens de lucro. “Os donos de lojas têm buscado essa alternativa até para preservar os empregos dos funcionários”, afirmou.

O Shopping 10 Atacadão, por exemplo, na Avenida Sete, em Salvador, perdeu cerca de 65% dos funcionários nos últimos três anos, em virtude da baixa nas vendas.

A gerente do empreendimento, Ana Lúcia Iung, 47, viu o número de colaboradores despencar de 26 para nove desde que começou a trabalhar na loja, há cerca de três anos. “Além das perdas, estamos sem contratar ninguém há dois anos. A situação é realmente muito complicada”, lamentou Ana Lúcia.

Segundo ela, o aumento das demissões acompanhou a queda nas vendas. “Antigamente, vendíamos cerca de R$ 25 mil por dia, hoje não vendemos nem R$ 10 mil em um dia”, contou.

Em uma loja vizinha, a vendedora Cíntia Brandão, 32, relembra que o período da virada do ano de 2015 para 2016 foi o auge do aperto para o estabelecimento. “Aquele final de ano foi muito complicado. A Avenida Sete virou um deserto”, conta a funcionária da Domest&Co.

O presidente do Sindicatos dos Comerciários da Bahia, Jaelson Dourado, destaca que os efeitos da crise são mais sentidos no trabalhador do que no empresário. “Eles [os empresários] têm gordura para queimar, o problema é o trabalhador, que perde seu emprego e agora ainda está correndo o risco de perder seus direitos. Por isso estamos participando de todas as manifestações populares com o objetivo de barrar as mudanças”, afirmou.(Correio 24 horas)

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