segunda-feira ,17 dezembro 2018
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Professora sustenta que os municípios precisam discutir questões étnico-raciais desde a creche

Durante o estudo para sua tese de doutorado, a professora Edmacy Quirina ouviu uma criança negra se autodeclarar como “branca escura”. Levando adiante sua pesquisa a respeito das relações étnico-raciais na educação infantil, especificamente nas pré-escolas e creches municipais de Itapetinga, a professora fez um levantamento de mais de 10 instituições do município com o objetivo de observar como as crianças, no contexto da educação infantil, se identificavam em relação à cor.

Natural de Ibirapitanga e professora da Universidade Estadual do Sul da Bahia (Uesb), Edmacy estuda noções de representatividade e autorrepresentação no âmbito escolar. Em sua pesquisa, analisando o ambiente em que as crianças se encontram, a maioria delas negras, a professora notou instituições embranquecidas, chamadas pela pesquisa de escolas de “alma branca” que, segundo ela, acabam influenciando no modo como as crianças se enxergam. “Ela [a criança] chega na escola e se depara com um espaço todo decorado com desenhos de crianças de cabelos amarelos e bonecas do mesmo jeito, todo esse contexto leva a essa negação da sua cor e da sua identidade, porque na verdade é uma construção identitária”, afirmou a professora em conversa com o Bahia Notícias.

Qual era o seu objetivo principal com a pesquisa?

Essa pesquisa é resultado da minha pesquisa de doutorado em educação. O título final ficou “Crianças negras em escolas de ‘alma branca’”, e é um estudo sobre a diferenças étnico-raciais na educação infantil. Ela teve como principal objetivo identificar se existia a questão racial nessas escolas e como ela era vista. Era também analisar como a criança, na condição de sujeito produzido culturalmente, vivencia as diferenças étnico-raciais no contexto da educação infantil, como essas experiências eram vividas pelas crianças, como elas se viam, como elas se percebiam, visto que as escolas públicas na Bahia e em Itapetinga, especificamente, são contingentes de crianças pretas e pardas. Em visitação às escolas foi percebido que, mesmo as crianças sendo em sua grande maioria negras, existe uma dificuldade de trabalhar com essas crianças, de desenvolver um trabalho desde o início, desde a creche e a pré-escola, e discutir a questão racial no dia-a-dia, no cotidiano.

A senhora pode explicar melhor o conceito de escola de ‘alma branca’?

Então, escola de alma branca é uma discussão que se faz, ela surge no contexto da discussão de embranquecer o negro. O termo surge como uma crítica propriamente, que diz que uma escola, que tem o seu contingente de crianças pretas e pardas (ou como o movimento negro discute a questão de que pretos e pardos formam um contingente de sujeitos negros), mas tem seu espaço caracterizado com imagens de crianças brancas. Na pesquisa, eu faço uma análise das imagens com que as escolas ornamentam os seus espaços, usando bonecas brancas. Como a criança vai se construir e se ver como negra positivamente se ela se depara o tempo todo com bonecas brancas? As crianças passaram por entrevista, onde elas teriam que se identificar, e nessa identificação, elas não se identificaram como negras, elas se viam como brancas. Foi questionado a cada criança, e a maior parte delas, mesmo sendo pardas ou negras, elas queriam ser brancas. Quando chegou em uma das crianças negras, ela disse que era branca escura.

A senhora atribui essa identificação das crianças a uma educação de escola de ‘alma branca’?

Eu acho que não só a escola. Essa constituição de a criança crescer de forma que ela não se veja como negra é também uma constituição histórica, que perpassa pelas questões da família, perpassa pela escola, pela mídia… Se uma criança assiste uma TV, ela vê o tempo todo as apresentadoras brancas e loiras, se ela vai ver um desenho, é com personagens brancos, se ela vai na rua comprar uma boneca, se depara com uma maior quantidade de bonecas brancas. Então as referências ao redor dessa criança têm se constituído de uma cultura eurocêntrica, que também impossibilita a criança de construir uma imagem positiva de si, então ela não vai se ver como negra, porque negro é feio, negro é aquele que, culturalmente, foi incutido que não tem uma boa aparência, que não está na mídia, que não tem algo positivo relacionado a ele, então essas crianças vão ter essa dificuldade de se identificarem e se declararem. Até porque, até mesmo os adultos têm dificuldade de se declarar. Nas entrevistas feitas com os professores na pesquisa, tem professor negro que se declarava como branco. Então a criança vem dessa constituição, dos pais, da mídia, da sociedade, dos grupos que a criança brinca, e ela chega na escola e se depara com um espaço todo decorado com desenhos de crianças de cabelos amarelos e bonecas do mesmo jeito, todo esse contexto leva a essa negação da sua cor e da sua identidade, porque na verdade é uma construção identitária.

 

Na sua pesquisa, também é citado que alguns professores, tanto negros quanto pardos, têm dificuldade de se declarar como negros, como isso influencia na formação da criança?

Algumas professoras se declararam como negras, elas me falaram que tinham começado a entender esse processo depois que entraram na faculdade. Porque assim, no Brasil, as pessoas que têm uma tonalidade de pele mais clara, se a gente pegar as categorias determinadas pelo censo, essas pessoas têm uma tendência a se aproximarem do branco, se veem como pardas, então não são negras. Na sua grande maioria, as professoras são pardas e há uma tendência de elas não se verem como negras, e pelos discursos delas, elas começaram a se perceber e a construir essa identidade negra a partir do momento que entraram na faculdade, a partir do momento que começaram a ter essas discussões, porque elas não se viam assim até o momento. Se esses professores, que são os formadores, eles precisam primeiro construir uma identidade negra, eles precisam também conhecer, e acho que isso perpassa pela formação do professor, porque além de eles não se veem, eles têm que ter uma formação de forma que vá possibilitar o embasamento teórico para construir essa identidade. Então existe uma escola branqueada, a partir da construção do seu espaço, e que levam a institucionalização do racismo, e pode não ser algo proposital, é uma coisa que eles não percebem que existe, isso perpassa por uma política também de formação. Não se pode ter só um curso na universidade, ou ter uma formação inicial, mas ter uma formação continuada nas escolas. Os municípios, e a Bahia de uma forma geral, eles precisam ter uma política de formação para as discussões étnico-raciais nas escolas, e isso não apenas no ensino médio, ou no ensino fundamental, mas desde a creche, os cuidadores precisam ter uma formação que traga essa discussão. Porque a discussão étnico-racial não é uma questão para se discutir no dia da consciência negra, é uma discussão que precisa ser feita cotidianamente. Porque em todos os momentos, a todo instante a gente se depara com situações de preconceito, e entre as crianças também. Ninguém nasce odiando alguém pela cor, isso é uma construção histórica e social que está presente. Então de alguma forma está atrelada a uma formação continuada desses profissionais que lidam com crianças.

Existe uma lei que obriga as escolas a ensinarem sobre a cultura africana e indígena, você acha que essa medida colabora para que mais crianças se reconheçam/ autodeclaram negras?

Antes dessa lei era muito pior, porque não tinha nenhuma discussão étnico-racial. Então assim, essa lei contribui, mas a lei por si só não vai se auto promover, então é preciso que os professores tenham conhecimento, tenham estudo sobre essa lei, e que estejam o tempo todo fazendo essa relação dos documentos legais, da produção científica a respeito, com o cotidiano. E até desconstruir o olhar de que a criança é assim [racista] porque ela nasceu assim, não é natural, o racismo não é natural, não é determinista. Então tem que desconstruir isso, porque esse discurso ainda está enraizado nos professores, então é preciso desconstruir. Isso é, fazer com que é que os professores estejam discutindo isso cotidianamente e caracterizar os seus espaços também com referências negras, então falta isso também, porque na verdade é o que falta pra essas crianças são referências negras.

A senhora se considera negra? Como foi pra você esse reconhecimento?

Sim, eu sou negra. Vamos colocar assim: eu nunca sofri preconceito ou racismo na infância. Talvez por ser da cor parda, eu nunca me vi como vítima de racismo na infância ou na adolescência. Eu nunca me senti vítima, pode ser até que tenha sofrido mas não me lembro. Mas assim, eu vim de uma família negra, minha mãe é negra, meu pai poderia ser socialmente declarado como branco, mas hoje, fazendo um estudo, ele seria declarado como pardo. E eu vivi uma família de contação de histórias. Meu pai sempre me contava histórias da minha mãe, e como ela, sendo negra, nunca se deixou intimidar em nenhum momento quanto ela sentia preconceito. Mesmo em um contexto como a década de 60, que essa questão era muito mais presente, ela não se calou. Hoje a gente vê muito na internet e na mídia [pessoas não se calando sobre suas situações] pessoas dizendo que ‘é mimimi’, ‘é vitimismo’. Não é mimimi. Quando você se cala você tá confirmando aquele racismo dizendo que tudo bem, não é racismo, é uma brincadeira, não foi por querer. Mas em forma de brincadeira, ou mesmo não querendo dizer isso, com o silêncio, está se legitimando o racismo. Então é preciso sim romper o silêncio. É preciso denunciar.

Por fim, de que forma a senhora acha que a gente pode criar uma educação não racista?

Realmente é necessário criar uma educação não racista. As escolas precisam mesmo começar essa construção. Acho que o principal ponto para criar uma educação anti racista, uma educação que realmente rompa com esse olhar das crianças, eu acho que perpassa por essa formação inicial e continuada desses professores que venho falando. E que essas crianças deixem a pré-escola e comecem a ter esse olhar. Então se vai contar história, porque tem que ser só os contos de fadas clássicos europeus, porque não pode ter um conto africanos? É preciso começar nessa base da educação e é preciso que o professor tenha essa formação. Temos um contingente de professores dando aula de educação básica, se esse professor não tem uma formação a respeito desse assunto, há uma dificuldade de se trabalhar essa questão na escola. Porque essa educação começa lá. A creche não é só pra levar a criança pra comer e dormir, é preciso ter uma formação lá também. Então iniciar, desde a educação infantil até todos os professores. [A solução] seria uma boa educação, inicial e continuada. É preciso ter o tempo todo essa relação.

Fonte: Bahia Notícias.

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