quarta-feira ,8 dezembro 2021
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Chapada: Sem aulas presenciais, municípios criam soluções para manter vínculo com alunos. (Correio)

A cerca de 400 km de Salvador, vive Caio Ferreira, 10 anos. Sua casa fica no Retiro, zona rural do município de Wagner, na Chapada Diamantina. O menino mora com os pais e a irmã. Nem um nem outro têm celular. Quando precisam, recorrem ao aparelho da mãe. A única televisão da família fica na sala, transmitindo a programação possível de ser sintonizada pela antena instalada no telhado. A internet chegou no povoado em 2016.

Assim como a maioria dos estudantes baianos, Caio parou de ir para a escola em 18 de março de 2020, após determinação do governo estadual no decreto nº 19.549, em medida de enfrentamento da pandemia.

A cidade de Wagner está entre as 24 que integram o território da Chapada Diamantina, caracterizado, entre outros aspectos, por possuir uma vasta zona rural, habitada por agricultores com parco acesso a meios tecnológicos de comunicação. Se o celular está presente, em média, em 80% dos lares dos estudantes – segundo levantamento das secretarias de educação da região quando da suspensão das aulas -, o computador é por ali item raro e, no campo, o sinal da internet ora chega, ora não. A substituição do ensino presencial pelo online não se mostrou, portanto, solução facilmente aplicável pelas escolas públicas da Chapada.

Há mais de 20 anos, o reconhecimento de dificuldades comuns e a vontade de superá-las motivaram a união de municípios da região diamantina e seu entorno. A precariedade da infraestrutura escolar, a falta de apoio a professores e a frouxa ligação entre a escola e a família chamaram a atenção da professora Cybele Amado, recém-chegada à cidade de Palmeiras em 1992. Em 1997, Cybele criou um programa que oportunizava formação continuada a seus colegas da rede municipal. Os primeiros resultados, como a redução de 20% no índice de repetência, atraíram o interesse dos gestores públicos de cidades vizinhas.

Dois anos depois, secretários de educação de 12 municípios começaram a escrever, juntos, um projeto de qualificação da educação batizado como Projeto Chapada e, em 2006, rebatizado como Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep). Essa foi a semente que deu origem a uma rede colaborativa envolvendo organizações sociais e privadas, além das secretarias de educação dos municípios. “O DNA do ADE no Brasil começou aí”, afirma Cybele, referindo-se ao modelo de associativismo territorial que, de forma não preditiva, ajudou a moldar. Em 2012, o Conselho Nacional de Educação regulamentou esse modelo com o nome de Arranjo de Desenvolvimento da Educação (ADE). Existem hoje no país pelo menos 14 ADEs ativos no Nordeste, Sudeste e Sul.

Desde 1997, a capacitação dos profissionais da educação é uma prioridade no ADE Chapada, que atualmente integra 21 municípios, inclusive Wagner. Cabe ao Icep liderar as formações pedagógicas nessa rede, em encontros realizados programaticamente. Em 2020 não foi diferente, e os encontros ocorreram graças às plataformas digitais. São momentos em que, por exemplo, professores das diferentes cidades compartilham uma tarefa passada aos alunos, exitosa ou não, para servir como ponto de partida para reflexões coletivas.

A persistência no aperfeiçoamento da prática dos educadores vem confirmando sua efetividade na melhoria do aprendizado de quem está na outra ponta, os estudantes. Um dos indicadores que sugere o avanço é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). De 2005 a 2019, as escolas do arranjo da Chapada saíram de uma média de 2,8 para 5,7 no Ideb. Isso nos anos iniciais do fundamental (do 1º ao 5º), segmento para o qual o Ministério da Educação estipulou a pontuação 6 como meta a ser atingida até este ano de 2021. A escala do Ideb vai de 0 a 10, e a pontuação 6 corresponde ao nível médio de desempenho nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entre os quais Portugal, Chile e Austrália.

“Os educadores precisam ver os seus resultados, eles precisam ser reconhecidos, publicizados. Isso tudo vai mostrando concretamente que a gente pode avançar, que a gente pode mais, que é possível”, conclui Cybele, que em 2019 deixou a presidência do Icep.

No ano de 2020, o primeiro em que educadores da região se viram diante do desafio de exercer o ofício à distância, a crença no “é possível” parece ter feito a diferença. Nenhum dos 21 municípios do ADE Chapada deixou de oferecer atividades aos alunos isolados em suas casas, fossem tarefas impressas ou enviadas por aplicativos de mensagem.

Fizeram-se presentes também por meio de informes em carros de som, rádio e até cartas escritas à mão. “Nos carros de som, a gente dá avisos sobre distribuição da merenda escolar, entrega das atividades impressas, instruções para as famílias”, enumera Adriana Rocha, da Secretaria de Educação de Souto Soares.

Indo mais longe
A Chapada Diamantina já foi palco de um intenso vai e vem nos trilhos da Estrada de Ferro Central da Bahia. No final do século 19, a estação Machado Portela era uma das principais paradas. Ela ficava no município de Marcionílio Souza. Os trens que dali partiam carregavam o ouro e o diamante extraídos daquele chão.

Mas a movimentação nas linhas férreas foi pouco a pouco ralentando durante o século 20. Da estação Machado Portela, restam hoje somente as ruínas. Quem lembra dessa história é o radialista Israel Santos, “70 e tantos”, fundador da rádio Rede Social FM, a única de Marcionílio Souza. Em 2020, foi essa estação radiofônica que perigou se tornar mais uma peça do passado. Israel conta que a fuga de anunciantes provocada pela pandemia quase o fez silenciar. Mas o problema ensejou a solução.

Com a necessidade de refazer o planejamento das atividades escolares, Adriana Gonçalves, diretora pedagógica da rede municipal de Marcionílio Souza, criou o “A voz da cidade em tempos de pandemia”, programa de literatura pela rádio. Por cerca de 20 minutos, duas vezes na semana, contos infanto-juvenis, textos reflexivos e bate-papo com autores regionais chegam a toda a cidade pelos alto-falantes instalados nos postes de luz. Já nas áreas rurais, só acessa quem tem internet. “E a gente manda ainda o áudio dos programas para todas as famílias que têm Whatsapp”, conta Adriana.

Em Seabra, a 250 km de Marcionílio, também teve programação educativa de rádio, com foco nos pequenos não alfabetizados. O contato com educadores dos municípios contíguos influenciou a iniciativa, lembra a pedagoga Vailma Medeiros, supervisora da educação infantil na Secretaria de Educação local. “O que fortalece todas as ações que a gente pensa que foram criadas só por Seabra é o diálogo. Nas formações mensais com o Icep, quando a gente escuta um município, escuta outro, isso rende em nós outras ideias”.

Com a criatividade em ebulição, Vailma tirou do caldeirão duas fadas e um gnomo. Margarida, Violeta e Guimbo são os locutores do programa “Bom é ser Criança”. Eles conduzem os quadros de curiosidades, literatura, música e dicas para as famílias. O programa está no ar em quatro estações, uma na sede e três nas comunidades rurais. E, assim como em Marcionílio Souza, o áudio de cada programa é repassado por Whatsapp para os que possuem o aplicativo.

John Lucas Marques, 6, é um dos que aguardam com ansiedade esse momento. Ele mora em Lagoa da Boa Vista, a 18 km de Seabra. O sinal da rádio não chega ali, mas ele sabe o dia da semana em que o áudio chega no celular da mãe. Uma vez, pediu que as fadas Violeta e Margarida lessem no programa a história “Uma pedra no meio do caminho”. O pedido foi logo atendido. De tanto ouvir, aprendeu a fábula de cor e sabe recontá-la com todos os detalhes onomatopeicos. Na floresta, havia uma pedra no meio do caminho. O sapo, a onça e o elefante passaram por cima. Até que veio um passarinho. Incomodado com o obstáculo que atrapalhava todos, tentou removê-lo, mas era pesado demais para ele só. Chamou então seu bando. A força das múltiplas asinhas derrubou a pedra penhasco abaixo, liberando a passagem na mata.

Por um fio
Na cidade de Wagner, a professora Érica Garcia também precisou de ajuda para tirar do caminho “as pedras” que obstruíam o contato com os alunos. Nesse município, os responsáveis pelos estudantes tinham que buscar as atividades impressas na escola ou, em alguns casos, o material era entregue nas casas. A cada quinzena, novas tarefas eram disponibilizadas, enquanto as anteriores deviam ser devolvidas para correção.

Um roteiro diário de estudo acompanhava as apostilas. De segunda a sexta, das 14h às 16h, Érica orientava parte de sua turma do 4º ano que tinha condições de usar a plataforma Google Meet. Em seguida, a professora ia para o Whatsapp fazer o mesmo com os estudantes que não se incluíam nesse primeiro grupo. Mas, de seus 23 alunos, oito não estavam nem num conjunto nem no outro. Não se tinha o contato telefônico deles. E, por mais de um mês, eles não devolveram as apostilas.

“Tem aluno que faz a gente pensar ‘por que esse menino não está aprendendo?’, ‘a família dele não ajuda’. E quando a gente vai ao encontro dessa família, entende o porquê”. Essa é a reflexão que Érica faz agora, após ter decidido romper as dezenas de quilômetros de estrada de barro que a separavam dos oito estudantes.

De setembro a novembro do ano passado, a professora visitou um a um os meninos de quem não tinha notícia, entre eles Caio Ferreira – aquele do início da reportagem – e Isac Bezerra, 11, seu colega de turma e vizinho de casa, no distrito do Retiro. Sentava-se com os alunos, respondia ao que não tinham entendido e explicava as novas lições. Conversava também com os familiares. Ensinava e aprendia. “Eu chegava em umas casas de pau a pique, de não ter um banco para sentar. Os meninos faziam as tarefas no chão. Eu me senti envergonhada, porque eu escrevia assim [na capa das apostilas]: ‘Procure um lugar limpo na sua casa para fazer a tarefa, sente numa cadeira’. Que vergonha. Isso mostra que a gente não conhece o aluno. O que para a gente é uma orientação, para ele pode ser uma ofensa”.

Depois da primeira visita, o choque serviu para Érica pedir ajuda a colegas. Com as ideias surgidas nessas conversas, ela mudou o enunciado de abertura e refez todos os blocos de atividades que iam para as comunidades rurais.

“Sabe uma coisa que você faz achando que vai ajudar alguém e na realidade você vai para ser ajudado? Essa experiência me mudou como ser humano” – Érica Garcia, professora da rede municipal de Wagner, sobre a visita aos estudantes.

Para a professora, a ida ao encontro dos estudantes não foi “nada mais que uma obrigação moral”, diz. E se questiona se seu relato merece ser contado em um jornal. No momento da entrevista, Érica não sabia que – de acordo com o Unicef -, em 2020, cerca de 5,5 milhões de crianças e adolescentes tiveram o vínculo com a educação completamente rompido, ou porque não se matricularam ou porque não tiveram acesso a nenhuma atividade escolar. Os alunos da sua turma da Escola Municipal Violeta Graham Araújo não estão representados nesse número.

Também não estão as gêmeas Geovanna e Julya Santos, 5 anos, da comunidade de Brauninha, em Seabra. Foi um recurso duplamente remoto que manteve o fio entre as meninas e a escola. Cartinhas escritas à mão, em folha de papel ofício branca, chegaram para elas de agosto a dezembro do ano passado. “Olá, crianças, como vocês estão? Estou com saudades”, dizia uma das correspondências.

Envelopadas num saco plástico, as cartas eram acompanhadas por uma história, sugestões de brincadeira e dicas para a família. Na educação infantil de Seabra, 209 famílias sem meios de acesso a internet e rádio foram abarcadas pela iniciativa.

“As cartinhas me ajudaram bastante”, conta a mãe Ivaneide dos Santos, 34, que já não sabia mais como tirar passatempos da cartola. Antes do material ser enviado, e a exemplo do que seu avô fazia para entreter os netos, ela passou meses inventando aventuras para contar às filhas. “Mas às vezes não dava muito certo. Tinha hora que a história ficava sem meio e sem fim”, lembra a mãe, com um sorriso contido.

Sem meio e sem fim. Assim também parece ser a história que o mundo inteiro vive desde 2020. E a impressão era de que aquelas cidadezinhas protegidas pelos morros diamantinos nem chagariam a conhecê-la de perto. Mas, diante da inevitável realidade da pandemia, educadores da Chapada vêm dando exemplos de que é possível recriar princípios e compor novos enredos.

Reportagem do site Correio.

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