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Morro do Chapéu: pesticidas lançados em monocultivos afetam saúde de quilombolas

“Não tem como dormir à noite. O cheiro é muito forte, dá dor de cabeça”. “Mesmo com a porta fechada, entra aquele fedor em casa”. “A gente fica zonzo, sente arder o olho, os lábios, como se fosse pimenta”. “Eu devo ter alergia, porque sempre que vem esse cheiro passo mal, vomito, fico de cama”.

Os depoimentos são de moradores do quilombo Velame, em Morro do Chapéu (BA), na Chapada Diamantina. Na comunidade vivem 33 famílias, algumas a menos de 700 metros de fazendas de cebola onde são aplicados agrotóxicos até duas vezes ao dia, com maior intensidade de outubro a fevereiro. O Velame foi uma das três áreas quilombolas visitadas pela reportagem que estão expostas a efeitos de produtos químicos aplicados em médias e grandes propriedades.

Dor de cabeça virou rotina

Do centro de Morro do Chapéu ao Velame são 46 km, a maior parte do trajeto pela rodovia BA-052. As turbinas eólicas que despontam no horizonte indicam ser uma região de ventos fortes o ano todo. As massas de ar que geram energia também espalham os pesticidas, aplicados geralmente ao nascer e ao pôr do sol. Nas noites de verão, auge do cultivo da cebola, os quilombolas contam que é impossível realizar atividades ao ar livre ou mesmo ficar em casa com a janela aberta.

“Quando o vento para é até pior, porque o cheiro do veneno não vai embora”, conta uma moradora. “Às vezes, estou caminhando ou andando de bicicleta no fim da tarde e preciso voltar para casa porque passo mal. Começo a espirrar, faço vômito quando chego perto das plantações”. Ela afirma que nunca foi a uma unidade de saúde para reportar os sintomas. “Quando me sinto mal, tento fazer minha caminhada em outro canto, mas o cheiro ainda me acompanha”.

Os moradores do Velame preferem não se identificar para evitar represálias. Cerca de 80% dos adultos da comunidade trabalham em fazendas vizinhas – a média salarial é inferior a R$ 70 por diária, sem carteira assinada. São, na maioria, médias e grandes propriedades, com área entre 13 e 25 hectares, que produzem cebola e tomate e abastecem centros de distribuição no interior do estado e na capital Salvador.

A Bahia é o segundo maior produtor nacional de cebola e o quarto de tomate.

Entre os 10 princípios ativos mais pulverizados em Morro do Chapéu estão os inseticidas Metomil, classificado como altamente tóxico pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e Clorfenapir, considerado perigoso para o meio ambiente. A lista de agrotóxicos foi obtida em 2019 a pedido do Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), que solicitou uma Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) para apurar indícios de contaminação no município e em outros nove da microrregião de Jacobina (BA).

O MPBA constatou que a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) não monitorava a presença de pelo menos dois agrotóxicos na água que abastece a região: Mancozebe (“suspeita-se que prejudique a fertilidade ou o feto”, segundo a bula) e Permetrina, considerado muito perigoso para o meio ambiente. A Embasa afirmou à reportagem que seus resultados de análises de agrotóxicos apresentam valores abaixo dos permitidos pela legislação vigente, o que “não caracteriza risco à saúde da população”.

Os quilombolas do Velame possuem poços artesianos e cisternas e não são abastecidos pela Embasa. A principal reivindicação dos moradores, além de um exame periódico da qualidade da água, é que as fazendas onde se aplicam pesticidas não se aproximem mais de suas casas. A legislação brasileira não estabelece uma distância mínima para os casos de pulverização terrestre de agrotóxicos.

A Associação Comunitária dos Agricultores Remanescentes de Quilombo do Velame orienta os moradores a procurarem uma unidade de saúde assim que percebem os primeiros sintomas de intoxicação. “A tontura, ardência nos olhos, dor de cabeça, dura de 15 a 30 minutos. As pessoas sabem que vai passar e não procuram um médico”, explica a entidade, em resposta aos questionamentos da reportagem.

O relato de um dos quilombolas do Velame, que se diz “acostumado” ao odor do veneno, evidencia o problema da subnotificação: “Eles sempre pedem para a gente repousar. Então, acabo ficando em casa, e só vou lá se a situação estiver feia mesmo”.

Números não refletem a realidade

Nos últimos cinco anos, Morro do Chapéu registrou apenas 39 incidentes de intoxicação exógena por agrotóxicos – quando a absorção ocorre por pele e mucosas, via respiratória ou digestiva. O município tem 0,26% da população da Bahia, mas em 2020 concentrou 13,6% de todos os episódios contabilizados no estado, segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

Nem sempre a exposição ao veneno provoca sintomas imediatos. Na maioria das vezes, os prejuízos à saúde ocorrem lentamente, sem que o indivíduo se dê conta.  “Todos os dias, o organismo absorve as substâncias, depois excreta e elimina; absorve, excreta, elimina. Ele faz isso de forma muito competente, até a sua exaustão. É quando o indivíduo começa a acumular pequenas doses do agrotóxico, e pouco a pouco apresenta sintomas”, explica Antonio Marcos Mota Miranda, médico e pesquisador do Instituto Evandro Chagas (IEC), órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Segundo estimativa da pasta, a cada caso de intoxicação exógena por agrotóxico notificado no Brasil existem outros 50 não contabilizados.

CN com informações do CEDEFES.

 

 

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